A história da Cisco Systems começa em 1984, mas o problema que deu origem a ela existia desde o final dos anos 70. Leonard Bosack e Sandy Lerner trabalhavam na Universidade de Stanford, cada um em um departamento diferente. Ele no laboratório de ciência da computação, ela na escola de negócios. E os dois não conseguiam trocar e-mails.

Parece banal hoje, mas em 1984 cada rede de um departamento de Stanford falava um protocolo diferente. Não havia forma padronizada de fazer esses mundos conversarem. Bosack e Lerner, que eram casados, queriam se comunicar pelo campus. O jeito foi construir um roteador multiprotocolo que traduzisse dados entre redes incompatíveis.

Esse equipamento não era o primeiro roteador da história. Pesquisadores como William Yeager já tinham desenvolvido software de roteamento em Stanford. Mas Bosack e Lerner pegaram essa ideia e transformaram em produto comercial. Fundaram a empresa no final de 1984 e a incorporaram formalmente em dezembro daquele ano.
O nome? Uma abreviação de San Francisco. Conta a lenda que os fundadores viram a placa da cidade pela Golden Gate Bridge e decidiram que “Cisco” soava bem. O logotipo original é uma estilização das torres da ponte. Simples, direto e com uma pitada de acaso, como a maioria das boas histórias de fundação.
O primeiro roteador comercial e a origem de uma indústria
O produto inicial da Cisco era o AGS (Advanced Gateway Server), um roteador capaz de conectar redes que usavam protocolos diferentes. Naquela época, empresas e universidades tinham redes locais rodando DECnet, AppleTalk, IPX, TCP/IP e uma sopa de siglas que não conversavam entre si.
O AGS resolvia exatamente isso. E resolvia bem.
A Cisco não inventou o roteamento. Mas foi a primeira a vender roteadores multiprotocolo com suporte comercial sério para empresas. Isso é um detalhe que faz diferença: no mundo corporativo, tecnologia boa sem suporte não sobrevive. Qualquer gestor de TI que já ficou esperando retorno de um fornecedor às 23h de uma sexta-feira sabe exatamente do que estou falando.
A origem da Cisco também tem um lado turbulento. A relação com Stanford foi complicada. A universidade questionou o uso de propriedade intelectual desenvolvida no campus. O conflito se resolveu com um acordo de licenciamento, mas deixou cicatrizes. Bosack e Lerner saíram de Stanford para se dedicar integralmente à empresa, e nos primeiros anos rodavam a operação com recursos limitados.
Em 1986, a Cisco já faturava. Em 1987, Don Valentine, da Sequoia Capital, investiu na empresa. Valentine era o mesmo investidor que apostou na Apple e na Atari. Ele viu no roteador multiprotocolo algo que muita gente ainda não entendia: a demanda por interconexão de redes ia explodir.
O IPO de 1990 e a montagem de um império
A Cisco abriu capital na NASDAQ em fevereiro de 1990. A ação estreou a 18 dólares. O IPO levantou cerca de 36 milhões de dólares. Parece pouco para os padrões de hoje, mas na época era dinheiro suficiente para acelerar pesado.
Poucos meses depois do IPO, Sandy Lerner foi demitida. Bosack saiu em solidariedade. Os dois venderam suas ações (um gesto que, em retrospecto, custou bilhões de dólares) e seguiram caminhos diferentes. A empresa que eles fundaram na sala de casa passou para as mãos de gestores profissionais.
John Morgridge assumiu como CEO em 1988 e estabilizou as operações. Mas o grande nome da trajetória da Cisco ainda estava por vir.
John Chambers e a era das aquisições
John Chambers virou CEO em 1995 e ficou até 2015. São vinte anos à frente de uma empresa de tecnologia. Isso é quase inédito no setor. E o impacto foi proporcional ao tempo.
Chambers entendeu uma coisa simples: a Cisco não precisava inventar tudo internamente. Ela podia comprar empresas menores que já tinham resolvido problemas específicos e integrar essas soluções ao portfólio. Entre 1993 e 2000, a Cisco adquiriu mais de 70 empresas. Setenta. Em sete anos.
Muitas dessas aquisições eram cirúrgicas. Compravam tecnologia, absorviam engenheiros e descontinuavam o que não fazia sentido. O mercado chamava isso de “acquisition-driven innovation”. Funcionou? Funcionou muito. A Cisco saiu dos roteadores e entrou em switches, segurança, telefonia IP, colaboração, wireless.
Em março de 2000, a Cisco chegou a ser a empresa mais valiosa do mundo, ultrapassando a Microsoft com um valor de mercado de mais de 500 bilhões de dólares. Durou pouco, a bolha da internet estourou semanas depois, mas o marco ficou.
O estouro da bolha e a lição sobre diversificação
Quando a bolha da internet estourou em 2000-2001, a Cisco perdeu mais de 80% do valor de mercado. Demitiu 8.500 funcionários, o que representava cerca de 18% da força de trabalho. Foi brutal.
Mas diferente de muitas empresas daquela era (alguém lembra da 3Com? Da Nortel?), a Cisco sobreviveu. E sobreviveu porque tinha uma base instalada real. Seus roteadores e switches estavam fisicamente dentro dos data centers e armários de telecom de empresas pelo mundo todo. Não era especulação. Era hardware crítico que não podia ser desligado.
Essa é uma lição que vale guardar: empresas de infraestrutura têm uma resiliência diferente. Quando seu produto está no caminho dos dados, remover ele é mais difícil do que manter.
A partir de 2003, a Cisco se recuperou apostando em novos segmentos. Telefonia IP com o CallManager (depois rebatizado de Unified Communications Manager), segurança com a série ASA, wireless corporativo. Cada novo segmento era uma camada a mais de receita recorrente e dependência da base de clientes.
Linksys, o mercado consumidor e um desvio de rota
Em 2003, a Cisco comprou a Linksys por 500 milhões de dólares. Foi uma aposta no mercado consumidor que, para ser honesto, nunca encaixou direito na estratégia corporativa.
A Linksys fabricava roteadores para uso doméstico e pequenos escritórios. A tese era que o mercado de banda larga residencial ia explodir (e explodiu), e que a Cisco poderia capturar esse segmento via Linksys. Na prática, vender roteador de 60 dólares no varejo exige uma operação completamente diferente de vender chassis Catalyst para um banco.
A Cisco acabou vendendo a Linksys para a Belkin em 2013. Dez anos e uma saída discreta. Nem toda aquisição dá certo, e reconhecer isso faz parte.
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Meraki e a virada para cloud management
Em 2012, a Cisco comprou a Meraki por 1,2 bilhão de dólares. Essa aquisição foi diferente. Diferente de verdade.
A Meraki tinha um modelo que parecia simples demais para o mercado enterprise: gerenciar switches, access points e firewalls inteiramente pela nuvem, via um dashboard web. Sem CLI, sem console serial, sem aquele ritual de configuração que todo engenheiro de rede conhece.
No começo, muita gente do mercado torceu o nariz. “Gerenciar rede corporativa pelo browser? Isso não é sério.” Pois bem, uma década depois, o Meraki Dashboard gerencia milhões de dispositivos no mundo todo. Virou referência para redes distribuídas, especialmente em ambientes com muitas filiais, como varejo e educação.
A compra da Meraki sinalizou algo maior: a Cisco estava migrando de uma empresa que vendia caixas (hardware) para uma empresa que vendia assinaturas (software + serviço). Essa transição levou anos e ainda está em andamento, mas o Meraki foi o marco inicial.
Chuck Robbins e o reposicionamento para segurança e observabilidade
Chuck Robbins assumiu como CEO em 2015 e acelerou a mudança de modelo de negócio. A meta era clara: menos dependência de venda de hardware, mais receita recorrente com software e serviços por assinatura.
Algumas movimentações importantes aconteceram sob o comando de Robbins:
- Aquisição da Duo Security (2018) por 2,35 bilhões de dólares. Duo era uma plataforma de autenticação multifator (MFA) e acesso zero trust. Esse tipo de tecnologia virou obrigatório em qualquer empresa que leve segurança a sério.
- Aquisição da ThousandEyes (2020), plataforma de monitoramento de rede e internet. Com trabalho remoto acelerando, ver o que acontece entre o usuário e a aplicação na nuvem virou necessidade, não luxo.
- Aquisição da Splunk (2023) por aproximadamente 28 bilhões de dólares. Essa foi a maior compra da história da Cisco. O Splunk é referência em análise de dados de segurança e observabilidade. Com essa aquisição, a Cisco se posicionou como plataforma integrada de rede, segurança e análise de dados.
A lógica é conectar tudo: a rede que a Cisco já domina, a segurança que ela vem construindo há anos, e agora a capacidade de analisar o que acontece em tempo real. Para quem gerencia TI corporativa, isso significa (em tese) menos ferramentas diferentes para gerenciar e menos gaps entre o que a rede vê e o que o time de segurança investiga.
Na prática, integrar tudo isso é um projeto de anos. Mas a direção está traçada.
A Cisco no Brasil: como a história se conecta com o mercado local
A Cisco chegou ao Brasil no início dos anos 90, justamente quando a internet comercial começava a engatinhar por aqui. A operação brasileira foi estabelecida em São Paulo e cresceu junto com a expansão da infraestrutura de telecomunicações do país.
Nos anos 90 e 2000, praticamente todo grande projeto de rede corporativa no Brasil passava por equipamentos Cisco. Bancos, operadoras de telecom, órgãos do governo federal, universidades. A linha Catalyst de switches e os roteadores da série ISR viraram sinônimo de rede corporativa em muitas organizações brasileiras.
O programa de certificação da Cisco, o famoso CCNA/CCNP/CCIE, também teve um impacto enorme na formação de profissionais de rede no Brasil. Gerações inteiras de engenheiros de rede brasileiros aprenderam TCP/IP e roteamento estudando para essas certificações. Isso criou um mercado de profissionais qualificados e, ao mesmo tempo, uma base instalada que se retroalimenta: quanto mais gente sabe configurar Cisco, mais empresas escolhem Cisco.
Hoje, a operação da Cisco no Brasil inclui um centro de serviços e atende desde grandes bancos até provedores regionais de internet. Com o avanço de SD-WAN (a tecnologia que permite gerenciar links WAN de forma inteligente via software, muitas vezes substituindo MPLS tradicional), a Cisco tem disputado espaço com players como Fortinet e VMware (agora Broadcom) no mercado brasileiro.
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Quando a Cisco foi fundada e por quê?
A Cisco foi fundada em dezembro de 1984 por Leonard Bosack e Sandy Lerner, ambos funcionários da Universidade de Stanford, na Califórnia. A motivação original era resolver um problema real: interconectar redes de computadores que usavam protocolos diferentes dentro do campus.
O nome “Cisco” vem de San Francisco, e o logotipo representa as torres da Golden Gate Bridge. A empresa foi incorporada formalmente na Califórnia e começou a vender roteadores multiprotocolo para universidades e empresas nos anos seguintes. O primeiro produto comercial ganhou tração rápida porque resolvia uma dor concreta que muitas organizações tinham.
Como a Cisco se tornou líder mundial em redes?
A combinação de três fatores explica a ascensão da Cisco ao longo de 40 anos:
Primeiro, timing. A Cisco surgiu exatamente quando as redes de computadores estavam se tornando necessidade (e não experimento). O crescimento da internet comercial nos anos 90 foi um multiplicador absurdo de demanda por roteadores e switches.
Segundo, a estratégia de aquisições. Sob John Chambers, a Cisco comprou dezenas de empresas e absorveu tecnologias que teriam levado anos para desenvolver internamente. Isso permitiu que ela se expandisse para segmentos adjacentes com velocidade.
Terceiro, o investimento em certificações e canal de parceiros. A Cisco criou um ecossistema (aqui o termo é preciso: é de fato um ecossistema técnico-comercial) de revendedores, integradores e profissionais certificados que vendem, implementam e mantêm suas soluções. Isso gera uma inércia de mercado poderosa.
O resultado é que, segundo dados da própria Cisco e de relatórios de mercado da IDC, a empresa mantém participação dominante em switching e routing enterprise há décadas. Os concorrentes existem (Juniper, Arista, Huawei, HPE Aruba), mas a base instalada da Cisco continua enorme.
Decisões de 40 anos atrás que ainda afetam seu projeto de rede hoje
Tem algo curioso sobre a história da Cisco Systems que vai além da curiosidade corporativa. As decisões técnicas e de negócio tomadas lá atrás ainda impactam diretamente o dia a dia de quem planeja infraestrutura de rede em empresas brasileiras.
O IOS (Internetwork Operating System), o sistema operacional dos roteadores e switches Cisco, teve sua primeira versão nos anos 80. A evolução dele, o IOS XE, roda nos equipamentos atuais como o Catalyst 9000. A sintaxe de configuração, a lógica de roteamento, os conceitos de VLAN e spanning tree que todo engenheiro de rede aprende, tudo isso carrega DNA daquela época.
Quando você configura uma ACL (Access Control List) num switch Catalyst 9300 hoje, está usando uma linguagem que descende diretamente do que foi criado há quatro décadas. Muda a interface, muda a capacidade, mas a filosofia técnica permanece.
Isso tem vantagens e desvantagens. A vantagem é estabilidade e maturidade. A desvantagem é que modernizar ambientes legados Cisco pode ser complicado. Muita empresa brasileira ainda roda equipamentos Catalyst 3750 ou 2960 que foram comprados há 10, 15 anos. Funcionam? Funcionam. Mas não suportam recursos modernos de segmentação, automação ou telemetria.
E aí entra um dilema real de orçamento: trocar um parque de switches que “está funcionando” não é uma conversa fácil com o CFO. A planilha dele mostra que o equipamento já está depreciado e não gera custo de aquisição. O que ela não mostra é o custo de não ter visibilidade de tráfego, de não poder segmentar rede por identidade de usuário, de não ter dados de telemetria para investigar um incidente de segurança.
Essa é a tensão que define muitos projetos de rede em 2024 e 2025: o legado funciona, mas o legado não enxerga o que precisa ser enxergado.
Os 40 anos da Cisco e o que eles significam para TI corporativa
A história da Cisco não é só uma narrativa de startup que deu certo. É um mapa das decisões que moldaram como redes corporativas funcionam no mundo todo. Do roteador multiprotocolo de Stanford ao Splunk rodando análise de segurança em tempo real, cada passo da Cisco respondeu a uma demanda real do mercado.
Algumas dessas respostas foram brilhantes (a aquisição do Meraki, a aposta em certificações). Outras foram tropeços honestos (a aventura com a Linksys, a demora em abraçar cloud nativo). Mas o resultado acumulado de 40 anos é uma empresa que está fisicamente presente na infraestrutura de rede de milhões de organizações.
Para quem trabalha com TI corporativa no Brasil, entender essa trajetória ajuda a tomar decisões melhores. Não porque a Cisco seja a única opção, mas porque entender de onde veio a tecnologia que roda na sua rede dá contexto para decidir para onde ela vai.
A pergunta que todo gestor de TI deveria fazer não é “a Cisco ainda é relevante?” (a resposta é obviamente sim). A pergunta é: “minha infraestrutura Cisco está aproveitando o que a plataforma oferece hoje, ou estou rodando tecnologia de 2012 em equipamento de 2010?”
Se a resposta te incomodar, talvez seja hora de conversar com quem entende do assunto.
A Omega Brasil é parceira Cisco no Brasil e executa projetos que carregam essa herança de engenharia. De renovação de parque de switches a implementação de SD-WAN e Meraki, a equipe conhece a linha Cisco de ponta a ponta. Fale com a Omega Brasil para uma consultoria sobre seu ambiente de rede.
Profissional com sólida experiência no mercado corporativo de Tecnologia da Informação, à frente da Omega Brasil, construiu uma trajetória de 20 anos com foco em soluções, parcerias estratégicas e crescimento sustentável dos negócios.